Relacionamento abusivo vai muito além de uma agressão


Toda menina sonha em viver uma história de amor igual das princesas da Disney. Sonham em encontrar o príncipe encantado, o homem perfeito e o amor verdadeiro. Na vida real sabemos que não funciona desse jeito, é muito difícil se relacionar hoje em dia e encontrar alguém que queira estar com você, e que saiba te respeitar acima de qualquer coisa. Ter um bom relacionamento nos dias atuais se tornou raro, o número de mulheres que sofrem com relacionamento abusivo cresceu gradativamente, mulheres são vítimas diariamente do machismo, agressões e até mesmo do feminicídio.
O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de feminicídio de acordo com a ONU Mulheres. Cerca de 41% dos casos de violência acontecem dentro de casa. Falar sobre relacionamento abusivo ainda está muito ligado apenas a violência física, mas não podemos nos esquecer que quando um relacionamento afeta nosso psicológico, interfere na nossa autoestima ou quando nos controlam por meio de ameaças, constrangimentos, manipulações, isolamentos, perseguições e limitações do direito de ir e vir, isso também é um relacionamento abusivo e precisamos deixar isso cada vez mais claro na sociedade atual.
Vivemos em uma sociedade em que o machismo ainda é predominante, muitos homens e até mesmo mulheres acreditam que a roupa que uma mulher usa pode motivar um estupro, ou uma voz mais alta para seu parceiro pode motivar uma agressão. Isso faz parte de um machismo enraizado na cultura brasileira. Entender que a culpa nunca é da vítima é o primeiro passo para mudar a cultura do estupro, o machismo e os índices de feminicídio.
Com isso, decidi entrevistar meninas que já sofreram algum tipo de violência psicológica ou com relacionamento abusivo, todas as meninas que entrevistei estão na faixa etária de 19 a 25 anos, são mulheres jovens que apesar da idade já passaram por situações ruins envolvendo seus parceiros. A primeira foi Gabriela Pereira, de 19 anos, conheceu seu parceiro por uma amiga e o início era normal, dois solteiros se conhecendo.
– Durante o relacionamento, por mais que eu tivesse noção de que certas atitudes eram erradas, eu não sabia a proporção daquilo até terminar de vez. Esse relacionamento chegou afetar a minha saúde, passei a ter pressão alta por causa de estresse e consequentemente, desmaiava e comecei a ter convulsões, já cheguei a parar no hospital por causa desse relacionamento. Não consegui me abrir para os meus pais, mas meus amigos foram essenciais para me ajudar a sair desse relacionamento. Eu consegui perceber que não dava mais para eu fazer aquilo comigo mesma, insistir nesse relacionamento era o mesmo que insistir em piorar minha saúde – disse Gabriela.
Os dois por serem do mesmo ciclo social de amigos, Gabriela teve uma dificuldade maior de se afastar do seu ex parceiro, pois ele a afetava emocionalmente. Perguntei qual conselho Gabriela daria para alguém que esteja passando por algum tipo de relacionamento abusivo.
– É difícil dar um conselho porque muitas vezes a pessoa nem percebe que está em tal situação, mas assim, lutar contra não é o fim do mundo, e nunca vai ser, e com certeza vai valer a pena. Depois de tudo que aconteceu, e tudo que me submeti, hoje me vejo com uma pessoa muito mais feliz e leve, e sei que encontrarei mil oportunidades e pessoas que irão agregar na minha vida. De um modo geral, não desista e não se cobre e nem se culpe, porque é realmente muito difícil sair dessa situação, mas não é impossível, acredite – Gabriela. 

A segunda entrevistada foi Daysa Ayache, de 25 anos, conheceu seu ex namorado através de um amigo e o primeiro ano do relacionamento era maravilhoso.
– Eu percebi que estava em um relacionamento abusivo quando ele começou a me proibir de falar com meus amigos e de sair. Eu tentava terminar com ele, mas não aceitava, ele me perseguia. Uma vez tentei terminar com ele dentro da casa dele, e ele me trancou no quarto dele e só me deixava sair quando a gente estivesse bem. Eu só consegui terminar com ele, quando desapareci da vida dele – disse Daysa.
Ao contrario do que realmente acontece, Daysa não teve o apoio da própria família. Ela não recebia muito carinho, não se sentia confortável para se abrir para eles, tinha problemas com a mãe e a irmã e não se sentia acolhida por aqueles que deveriam estar ao lado dela. Ela acabou encontrando apoio e carinho na família do seu ex namorado, por isso teve uma dificuldade maior para se separar dele. Fiz a mesma pergunta de qual conselho Daysa daria para alguém que esteja em um relacionamento abusivo.
– Reparar nos mínimos detalhes em questão de respeito, se ele começa a te proibir de fazer as suas coisas e reparar o jeito como ele se comporta. E eu acho essencial sempre ter o apoio da família, a família saber apoiar, acolher ao invés de apontar o dedo, pois são as únicas pessoas que realmente não vão desistir de nós. Hoje me sinto completamente livre, feliz e segura das minhas ações, acredito que reconhecer o tipo de relacionamento que tem é o primeiro passo para uma mudança saudável – Daysa.
Reconhecer que está em um relacionamento abusivo é o primeiro passo para se sentir mais livre e dona de si. Muitas pessoas demoram a procurar e pedir ajuda, e quando dão esse passo, certeza que o caminho para sair desse tipo de relação ficará mais fácil. Com isso, entrevistei a psicóloga Chryssie Xavier, de 46 anos, formada pela Universidade Celso Lisboa, que falou como foi atender vítimas desse tipo de relação.
– O primeiro passo para começar o tratamento é ouvir e dar relevância a tudo que ela sentiu e passou e depois utilizar das práticas que aprendemos ao longo da nossa carreira para aumentar a autoestima da vítima e fazer com que ela se sinta segura. Para assim, fazer com que ela melhore e perceba como ela tinha que se amar e respeitar mais para não permitir mais que passasse por isso. Por trás de um abusador tem uma pessoa dependente emocionalmente – disse Chryssie.
Para a psicóloga é muito comum a vítima ter medo de se relacionar novamente, começar a se perguntar o motivo de ter escolhido uma pessoa com aquelas características e a se sentir culpada por não ter percebido isso antes. Isso pode trazer depressão e transtornos de ansiedade. Perguntei para Chryssie qual conselho ela daria para quem está passando por uma situação dessa.
– O conselho é que a pessoa procure a ajuda de um psicólogo e procure olhar para as suas necessidades e desejos sem se sentir culpada, pois todo mundo merece ser feliz – Chryssie.
O relacionamento abusivo existe e devemos ficar atentos aos pequenos sinais, não devemos nos calar, não devemos aceitar qualquer tipo de humilhação ou violência psicológica. Ter o apoio de amigos e familiares é essencial para perceber que você talvez esteja em um relacionamento abusivo. Lembre-se sempre que esse tipo de relação não se limita apenas em agressão física.

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